Por Laurielly Rocca

O termo propósito vem mudando ao longo dos anos. Antigamente, essa não era uma preocupação das pessoas, muito menos a respeito da escolha profissional. A partir das diversas inovações tecnológicas, o acesso à informação e mudança do perfil dos colaboradores, a busca pelo propósito tem ganhado cada vez mais espaço, não apenas na discussão no âmbito pessoal sobre o sentido da vida, mas sim sobre se os valores empresariais condizem com os seus próprios.

É necessário encontrar o seu propósito para ter sucesso no trabalho e na vida?
Foto: Reprodução/FreePik

Por isso, neste estudo, trouxemos três visões diferentes sobre propósito: a perspectiva filosófica, a psicológica e a empresarial, foco de nossa análise. Além disso, fomos atrás de algumas pesquisas realizadas a respeito da busca de propósito no âmbito empresarial. E, finalmente, como encontrar o seu propósito de vida.

Mas, afinal, o que é propósito de vida?

O propósito pode ser entendido de diferentes pontos de vista, como o filosófico, o psicológico e o empresarial. É interessante ressaltar que, apesar de fazermos essas três distinções para fins didáticos, em nossa vida prática não é assim. Somos um ser com nossos ideais e valores e não conseguimos excluí-los dependendo da atividade que praticamos ou das relações que mantemos.

Propósito: uma visão filosófica

Para Lúcia Helena Galvão, professora da instituição de filosofia sem fins lucrativos Nova Acrópole, “propósito nos dá uma coisa sólida na qual podemos ficar de pé. Sem nenhum norte, a vida é caos, e surgem insegurança, ansiedade, desespero”.

Ou seja, o propósito de vida é um caminho que temos a seguir, pois é importante que saibamos onde queremos chegar, mas também temos que ser flexíveis em entender que a vida é dinâmica e haverá momentos não planejados pelos quais teremos que passar.

O propósito é o destino no qual queremos chegar. Por exemplo, estar num carro sem rumo e sem saber para onde ele está nos levando, pode gerar angústia e desespero. Pode ser que a estrada esteja esburacada ou que o pneu fure, mas ter uma direção do nosso destino é fundamental para que dediquemos nossos esforços e criemos estratégias para chegar ao destino final – e esse é o propósito.

A professora afirmou, em entrevista para a Revista Gama, que hoje em dia é muito comum confundir propósito, ou sentido de vida, com projetos particulares. Enquanto um projeto é algo temporário e está mais relacionado com bens materiais, como comprar um apartamento ou abrir uma empresa, o propósito está ancorado no âmbito do “ser”. É importante manter um equilíbrio entre esses dois campos da vida, pois uma vida material digna também é essencial para a sobrevivência, mas ela pode ter muito mais sentido se estiver relacionada ao sentido da vida.

Propósito: uma visão psicológica

A psicóloga Flavia Feitosa, mestre em Psicologia Social pela London School of Economics and Political Science e doutora em Psicologia Social pela USP, afirmou, em entrevista para a Revista Gama, que não há propósito grande ou pequeno demais, mas sim o que importa é que seja reflexo da personalidade de cada um. Ou seja, suas escolhas devem estar relacionadas com sua essência e não simplesmente por ambição – pois isso pode levar à infelicidade, o que acaba gerando insatisfação no trabalho.

Propósito: uma visão empresarial

Marcella Lopes Borges, Analista de Treinamento e Desenvolvimento da Equipe de Gente e Gestão da TotalPass, afirma que é possível alinhar propósito pessoal dos colaboradores com os valores da empresa quando estes são compatíveis com os valores pessoais do indivíduo. Por exemplo, estar em uma empresa que apoia a igualdade entre os sexos, se esse é um valor para você, faz com que você se sinta no lugar certo.

Antigamente, os colaboradores ansiavam por um plano de carreira dentro de uma empresa estável no qual pudessem se aposentar. Hoje em dia, a segurança que uma empresa pode proporcionar não é mais suficiente para manter um funcionário até a aposentadoria e, com a facilidade de mudar de emprego, as pessoas cada vez mais buscam empresas com valores compatíveis aos seus. Diante deste cenário, as empresas têm vendido valores “populares” para atrair talentos, mas não necessariamente os vivem na prática. Por outro lado, existem “empresas que sabem onde querem chegar e no que acreditam. Assim, buscam atrair talentos que também participem desse propósito e vistam a camisa”, afirma Marcella.

Propósito no trabalho

A motivação principal pela busca de emprego é o dinheiro e isso é inegável. Porém, apenas uma remuneração salarial alta não é o suficiente. Conexão com o propósito de vida e oportunidade de crescimento na empresa são fatores tão determinantes quanto a remuneração na hora de decidir trocar de emprego. Foi o que revelou uma pesquisa feita pela Glassdoor em 2018.

A pesquisa foi realizada com 4.492 pessoas e revelou que, para 29,6% dos entrevistados, o principal motivo para trocarem de emprego é porque querem trabalhar com algo mais conectado com seu propósito de vida. Para 28,9% das pessoas, o motivo da troca é a pouca oportunidade de crescimento onde estão. Os outros fatores são: remuneração abaixo do desejado (24,6%), liderança insatisfatória (6%), baixa qualidade de vida (5,8%) e o ambiente de trabalho é ruim (5%). Ou seja, o principal motivo para a troca de emprego, para a maioria dos respondentes, era encontrar um trabalho cujo propósito de vida se encaixasse.

Já quando perguntados sobre o principal motivo para querer continuar no emprego atual, 25,1% responderam que há boas oportunidades de crescimento. Para 18,5%, o trabalho atual está conectado com seus valores e propósito de vida e, para 18,4% dos entrevistados, a remuneração e os benefícios são bons. Os outros motivos são: bom ambiente de trabalho (15,9%), acha difícil encontrar outro emprego (12,2%) e flexibilidade no dia a dia de trabalho (9,9%).

Quanto a uma pesquisa realizada pela Sodexo Benefícios e Incentivos em 2019 para mais de 1.000 pessoas no Brasil, os resultados foram bem semelhantes. 95% das pessoas afirmaram que possuem um propósito de vida, sendo que 53,8% acreditam que seu propósito de vida esteja conectado com seu atual trabalho e plano de carreira. Ainda, 83,4% dos entrevistados consideram que a atividade profissional que exercem contribui para melhorar a qualidade de vida de outras pessoas.

A partir dessas pesquisas, é possível perceber que apenas a remuneração oferecida pelas empresas não é o suficiente para manter seus funcionários felizes, sem que sintam a necessidade de procurar algo que preencha a sua atividade laboral de sentido. Ter propósitos claros de vida e valores condizentes com o que seus funcionários acreditam é fundamental para uma empresa de sucesso. Neste sentido, a atuação das lideranças é imprescindível para motivar os funcionários.

O estudo Putting Purpose to Work: a study of purpose in the workplace (Colocando propósito no trabalho: um estudo do propósito no ambiente de trabalho, em tradução livre), realizado nos Estados Unidos, revelou que 79% dos líderes acreditam que o propósito é fundamental para o sucesso comercial e a existência de uma organização. Porém, apenas 34% usam isso como guia na tomada de decisões. Além disso, apenas 27% dos chefes ajudam os funcionários a conectarem os próprios propósitos ao trabalho da empresa.

Se, antigamente, víamos o trabalho como algo separado de nossas vidas pessoais, hoje não é mais assim. Não conseguimos, nem precisamos, separar nossas atividades laborais das nossas metas pessoais – elas estão interligadas e precisam ser pensadas juntas para fazer sentido. Por isso, estar em um ambiente profissional em que se sinta feliz e realizado é fundamental para o alto desempenho no trabalho e para a felicidade em outras áreas da vida. Para Marcella, o que conecta as pessoas são objetivos em comum, já que os seres humanos, em geral, buscam similaridade.

“Quando estamos alinhando nossos valores e visão de vida com uma empresa que também tem estes princípios, ou em uma atividade que nos permite exercer isso, faz total diferença”, afirma.

Marcella Borges

A satisfação no trabalho não se dá apenas pelo salário, mas sim se seu trabalho faz sentido para você e para os outros, se existe paixão naquilo que se faz e se suas atitudes estão realmente contribuindo para um mundo melhor. Neste sentido, a nova geração vem cheia de novas exigências.

Propósito e as gerações

O mercado de trabalho tem sofrido muitas mudanças ao longo do tempo e, com o desenvolvimento tecnológico, as mudanças têm sido cada vez mais rápidas e perceptíveis. Antes de começarmos a falar sobre essas mudanças, é importante definirmos o que é geração. Uma geração vem da palavra “gerar” um descendente e costumava durar 25 anos, que é o tempo que leva para que o comportamento social de um grupo seja modificado. As gerações costumam ser agrupadas baseando-se nas semelhanças e em eventos culturais, sociais, políticos e econômicos do momento do nascimento. Porém, com as novas tecnologias e sobrecarregamento de informações, o tempo que dura uma geração diminuiu para 10 anos.

A geração nascida na década de 60 e 70 tinha como prioridade a estabilização num emprego visando sua aposentadoria, a compra de um bom carro e de uma casa. Ou seja, suas principais motivações eram baseadas na dedicação à família e estabilidade financeira. Já para os Millennials, nascidos entre 1981 e 1995, as prioridades mudaram.

Os Millennials, ou Geração Y, cresceram junto com a internet e, em sua maioria, em casas com famílias estabilizadas em um emprego e casa própria. Em função disso, se sentiram mais à vontade para arriscar profissionalmente e, muitos deles, ficaram confusos em relação a qual profissão seguir, já que não precisavam iniciar no mercado de trabalho cedo, visto que seus pais podiam sustentá-los. Por isso, priorizou-se o estudo em uma Universidade antes de entenderem suas habilidades e conhecimentos, fazendo com que muitos deles se sentissem perdidos e sem rumo.

Além disso, os Millennials viram o seu poder de compra reduzir drasticamente em relação ao de seus pais. Se, antigamente, seus pais conseguiam comprar suas casas, hoje em dia essa já não é mais uma realidade possível. Os trabalhadores da Geração Y foram pegos por diversas crises, como as de 2008, 2010 e a crise sanitária de 2019. Assim, está cada vez mais difícil se sobressair num emprego e, apesar de terem chegado aos 30 anos, ainda dependem da ajuda financeira de seus pais em muitos casos.

Porém, os Millennials são conhecidos por sua proatividade no trabalho e por adorarem inovação, informação, tecnologia e empreendedorismo. Além disso, são antenados em política e economia e foram considerados a geração mais empática com os clientes, conseguindo estabelecer relacionamentos duradouros com os compradores de seus produtos e serviços.

Por isso, a Geração Y procura por ambientes profissionais que os possibilitem crescer em suas carreiras, além de permitir um modelo de trabalho mais flexível e igualitário. Outro ponto muito importante para esta geração é que a empresa deve ter valores alinhados com a perspectiva de futuro deles e que seja preocupada com inovação. Tudo isso porque os Millennials são movidos por seus propósitos e valores e procuram por empresas que possibilitem que elas tenham um equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Marcella afirma que antigamente existia um desejo de encontrar uma empresa que desse estabilidade para se aposentar. Hoje em dia, com a facilidade de mudar e continuar nessa busca por um lugar que complemente e agregue em outros âmbitos e fases da vida, fez com que as empresas tivessem que se adaptar também. “A segurança que uma empresa pode proporcionar não é mais suficiente para manter alguém ali até a aposentadoria, se os valores não combinarem”, conclui.

Os Millennials contribuíram com muitas mudanças no mercado de trabalho, tanto como consumidores quanto como trabalhadores. No primeiro grupo, eles fizeram com que muitas empresas tivessem que se adaptar para vender produtos e serviços que fossem condizentes com os valores desses novos consumidores, como, por exemplo, estar preocupada com o meio ambiente e questão de animais (usar a pele em roupas, testes em cosméticos, etc).

Já no segundo grupo, foi a partir dos Millennials que as empresas começaram a implementar questões como saúde mental, clima organizacional, flexibilidade na jornada de trabalho, entre outros, em sua rotina organizacional. Por isso, envolver questões como fit cultural, bem-estar no trabalho, clima organizacional, inovações constantes, plano de carreira e salário, empreendedorismo e jornada flexível devem estar na pauta de empresas que desejam atrair este público como trabalhador.

Como encontrar o seu propósito de vida?

Para exigir valores de uma empresa, você deve ter o seu propósito de vida pessoal bem alinhado. Ou seja, não adianta nada você procurar por certas características no mercado de trabalho que não estão bem consolidadas em você mesmo.

Neste sentido, surgiu uma onda de busca de propósito intensa nos últimos anos. Porém, é importante que você não “pire” e ache que nada na sua vida faz sentido. Você já ouviu a frase “o caminho se faz caminhando”? Se você ainda não tem nem ideia do que é o seu propósito de vida, tudo bem!

Comece a trabalhar, independente do emprego ou da empresa, se envolva em projetos sociais, pratique o voluntariado, faça algum esporte, aprenda uma nova habilidade. Tente por, pelo menos, um mês cada um e, se não fizer sentido, troque. Assim, você começará a busca do autoconhecimento e, consequentemente, descobrirá qual é o seu propósito de vida. Só não fique parado esperando que magicamente surgirá uma ideia e você descobrirá!

Agora, você já parou para pensar que é possível encontrar o sentido da vida dentro de um campo de concentração, depois de perder toda a sua família? Pois é, foi exatamente isso que aconteceu com Viktor Frankl e ele contou toda a sua experiência no livro “Em Busca de Sentido”. Ele encontrou sentido no sofrimento, como conta neste trecho do livro:

“Quando um homem descobre que seu destino é sofrer, tem que ver neste sofrimento uma tarefa sua e única. Mesmo diante do sofrimento, a pessoa precisa conquistar a consciência de que ela é única e exclusiva em todo o cosmo-centro deste destino sofrido. Ninguém pode assumir dela isso, e ninguém pode substituir a pessoa no sofrimento. Mas na maneira como ela própria suporta este sofrimento está também a possibilidade de uma vitória única e singular. Para nós, no campo de concentração, nada disso era especulação inútil sobre a vida. Essas reflexões eram a única coisa que ainda podia ajudar-nos, pois esses pensamentos não nos deixavam desesperar quando não enxergávamos chance alguma de escapar com vida. O que nos importava já não era mais a pergunta pelo sentido da vida como ela é tantas vezes colocada, ingenuamente, referindo-se a nada mais do que a realização de um alvo qualquer através de nossa produção criativa. O que nos importava era o objetivo da vida naquela totalidade que incluiu a morte e assim não somente atribui sentido à “vida”, mas também ao sofrimento e à morte. Este era o sentido pelo qual estávamos lutando!”.

Viktor Frankl

Para o autor, a nossa existência não pode ser pautada somente no que esperamos da vida, mas sim o que a vida espera de nós, da nossa conduta e das nossas ações. Além disso, todo ser humano possui dons e habilidades que precisam ser descobertos e colocados a serviço do outro e da vida, por isso devemos nos testar em diferentes atividades para descobrirmos qual é o nosso sentido.

Para Marcella da TotalPass, o propósito é uma relação entre as metas do futuro e o nosso dia a dia:

“Não vejo como não pensar no futuro e, ao mesmo tempo, para tornar esse ideal atingível, são necessárias atitudes e posicionamentos hoje”.

Marcella Borges

De encontro a este pensamento, também há o termo japonês Ikigai. O que é isso, afinal? Não existe uma tradução literal para o termo, mas podemos estudá-lo por meio do livro “Ikigai: Os cinco passos para encontrar seu propósito de vida e ser mais feliz” do autor Ken Mogi. Segundo ele, Ikigai seria a sua razão de viver, sendo o motivo que faz com que você acorde todos os dias. Por isso, é muito importante que você identifique o que gosta de fazer, pois é isso que lhe dará propósito à vida.

O melhor de tudo? Para achar o seu Ikigai, o autor recomenda que comecemos com atitudes simples, como beber uma xícara de café pela manhã. Ou seja, não devemos ficar obcecados pelos grandes sucessos e objetivos da vida, pois assim ela se torna intimidadora. Deve-se começar com coisas pequenas e simples até chegar aos grandes objetivos, dando um passo de cada vez.

Para saber o que queremos da vida, o autor diz para começarmos a listar o que não queremos. Também é muito importante se observar e pensar no passado e no que dá prazer. Assim, você começará a descobrir que há muitas coisas novas para se experimentar, como cuidar do jardim, aprender a tocar um instrumento ou até falar em público.

A busca pelo propósito de vida. Foto: Reprodução/FreePik

O ideal, neste caso, é não sentir angústia ao procurar pelo seu propósito de vida. Há muitas possibilidades e, às vezes, isso pode nos assustar e nos deixar ainda mais aflitos. Por isso, não se pressione nem se culpe por ainda não ter encontrado o sentido da sua vida. Às vezes, tudo o que precisamos é nos observar, porque você já pode estar vivendo o seu propósito sem nem ter percebido. Não imagine que um propósito de vida só é válido se for um objetivo grande, como ser presidente de uma empresa ou construir uma multinacional. O verdadeiro sentido da vida está no nosso dia a dia, nas pequenas atitudes, como ajudar as pessoas à nossa volta, servir alguém ou desempenhar bem o seu trabalho.

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