Por Alexandre Storm

Desde o lançamento do Orkut em 2004, temos nos perguntado quais os limites da exposição da autoimagem e o quanto somos afetados pelo que acontece na vida do outro.

As redes sociais não inventaram o padrão de beleza irreal, o bullying ou a depressão, mas elas sem dúvida ajudaram a catalisar estes fatores de uma forma que pudemos sentir na pele o potencial que elas possuem de mudar nosso jeito de ser como sociedade. 

Há certa redundância em dizer que essas “ferramentas” de comunicação em massa nos trouxeram para o século XXI, no que se diz respeito a comunicação instantânea, mas o outro lado dessa moeda a longo prazo tem mostrado um preço alto à se pagar, o debate sobre o que as redes sociais fazem com nossa saúde mental é extenso e por mais que tentemos  não parecer alarmistas e um tanto paranoicos, quando falamos disso devemos ser lúcidos sobre o quanto o que acontece no ambiente virtual interfere no real.

Conversamos com uma psicóloga que compartilhou sua opinião sobre como as redes sociais fazem com que não interpretemos as coisas como deveriam ser:

“Há um grande prejuízo em se importar demais com as redes sociais, seja postando, ou seja, olhando o que acontece na vida dos outros, não há equilíbrio, não há muitas vezes sequer o pensamento nisso. O primeiro erro de percepção sobre a vida de uma pessoa muitas vezes é proposto pela própria pessoa que fez o post, e em geral ela nem faz ideia disso, a pessoa coloca ali muitos aspectos que ela gostaria de ter em sua vida, e a pessoa que interpreta mesmo sabendo que aquilo nem sempre é 100% real, acaba tendo a sensação de que a vida do outro é maravilhosa.” 

Até que ponto a rede social não afeta a saúde mental?

O quão afetados somos por recebermos notificações de notícias, mensagens de familiares, anúncios de eventos e e-mails de trabalho ao alcance do bolso? 

Diversas pesquisas sobre comportamento confirmam que a luz azul gerada por computadores e celulares é prejudicial à nossa qualidade de sono:  “As luzes e os sons emitidos pelos celulares minutos antes de dormir ou durante o sono podem deixar o corpo em estado de alerta. Isso não permite que o usuário desligue por completo e atrapalha um boa noite de descanso.”

 O conceito de hiper conectividade está relacionado ao tempo exacerbado a que permanecemos conectados quando deveríamos estar prestando atenção no mundo ao nosso redor, por exemplo durante as refeições ou em uma conversa.

Aposto que você tem uma lembrança nem tão distante assim sobre alguma situação social em que a pessoa conversando com você, ou até mesmo você, se desligou por um instante do diálogo para responder uma mensagem ou reagir à uma notificação no smartphone, estamos lentamente perdendo a habilidade de estreitarmos nossos laços com pessoas próximas ou até novas pessoas.

É necessário ficar atento(a) a hiper conectividade. Foto: Reprodução/Freepik

A Timeline acaba moldando seus gostos, costumes e preferências

Toda e qualquer rede social é desenhada para ser o mais atrativa possível aos olhos humanos, o “algoritmo” que em termos de programação são códigos que devem solucionar problemas e tem como objetivo mapear nosso comportamento nas redes a fim de prever nossas preferências para nos manter conectados por mais tempo.

Sempre que você clica em algo esse dado é interpretado pelo algoritmo e registrado para ser usado como uma preferência sua, a partir disso ele sempre vai prever quais vídeos, fotos, noticias ou discussões vão ter sua atenção por mais tempo e sempre irá lhe mostrar esse tipo de conteúdo para que você continue navegando, te fazendo comprar mais ou ver o maior número de anúncios.

O acesso em poucos cliques a tanta informação nos faz ter a ilusão de controle sobre o que consumimos, porém, não é bem assim, nós temos muito pouco controle sobre o que aparece para nós na timeline.

O “todo mundo” é só quem faz parte do meu feed

As redes sociais são baseadas em três princípios:

Publicidade

Para garantir que durante sua “navegação” a rede social esteja lucrando com anúncios.

Engajamento

Sempre se encarregando de lhe mostrar conteúdo que mantenha você navegando.

Crescimento

Para que você sempre convide amigos e compartilhe conteúdos com eles.

O mundo virtual baseado de acordo com o seu feed. Foto: Reprodução/Freepik

Criamos um mundo onde se tornou fundamental ter relações virtuais e com isso ficamos incrivelmente habilidosos em nos comunicarmos com emojis e/ou gifs animados, podemos sim conversar com muitas pessoas mas independente da sua popularidade, dificilmente você é amigo íntimo de todos os seus 1500 seguidores, nós convivemos com pessoas de carne e osso no mundo real, mas passamos a ser muito mais afetados pelo que é dito ou compartilhado por essas pessoas que sequer temos 100% de alcance no ambiente online.

Somos menos tolerantes ao diferente e nos tornamos impermeáveis ao que é contrário ao nosso jeito de ser e pensar

Como o “algoritmo de preferências” está sempre buscando conteúdos que te mantenham conectado por mais tempo, ele não irá te mostrar coisas que lhe desagradem, ou seja: As discussões que você tem com seus amigos nem sempre estão tão polarizadas quanto você imagina, nem sempre (ou quase nunca) você verá a realidade de tudo, mas sim um viés que lhe agrade e que pode ser sem equilíbrio dando apenas um dos lados da discussão.

Isso contribui de forma direta no quanto estamos suscetíveis à sermos menos flexíveis e abertos com opiniões ou conceitos opostos aos nossos, nos tornamos intransigentes e dessa forma fica muito fácil acreditar que: “O aquecimento global é uma invenção das marcas para vender mais bermudas” por exemplo. Quando você é bombardeado por artigos, documentários e vídeos de pessoas na internet divulgando “estudos” embasado por “especialistas” dizendo isso, é o que chamamos de falsa simetria, muitas vezes as pessoas não são más apenas mal informadas.

Um exercício válido de se fazer é o de sempre buscar informações por conta própria em fontes confiáveis, e volta e meia ver algum material ou conversar com pessoas que tenham um posicionamento diferente do seu, isso ajuda a ampliar sua visão de mundo e estar mais aberto a outros pontos e vista.

Neste ponto nossa psicóloga, comenta:

“Outro problema grande é o de que as redes sociais são grandes “portas abertas”, e consequência disso é que as pessoas se sentem no direito de falar o que pensam pro outro sem se conhecerem e abandonam o pudor que teriam no mundo real.”

Mudança feita em seu algoritmo fazia mal à saúde mental de jovens

Acontece que um efeito colateral não esperado pelo consumo constante das redes sociais é o de o quanto elas passaram a afetar nossa autoestima e nosso senso de identidade.

Um estudo realizado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) em janeiro deste ano, indicou que houve um aumento de 140% no número de intervenções cirúrgicas devido muitas pessoas estarem insatisfeitas com a própria aparência, em uma sociedade que passou a hiper valorizar padrões que são em sua maioria irreais, muitas pessoas que se sujeitam a tais procedimentos.

Conversamos com essa moça que não quis se identificar e que passou recentemente por uma cirurgia no queixo por conta da forma que se via nas fotos de suas redes sociais:

“Meu queixo nunca me incomodou, mas eu comecei a comparar com o de outras meninas que eu achava lindas nas fotos e passei a me sentir insatisfeita comigo, juntei dinheiro por dois anos e fiz uma cirurgia de “correção” o resultado foi que fiquei meses sem querer me olhar no espelho porquê eu não me reconhecia mais, não era eu, eu passei a vida toda olhando pra uma pessoa e agora estava olhando pra outra, foi um processo difícil em que eu precisei de auxilio psicológico para aceitar essa “nova” eu.”

Consequentemente a quantidade de pacientes nos consultórios de psicólogos e psiquiatras disparou durante a pandemia devido sabermos muito pouco sobre como lidar com a quarentena, ao se isolarem as pessoas em sua maioria tendem a passar muito mais tempo nas redes sociais, e não se engane, aplicativos unicamente de conversa como o WhatsApp também são redes sociais a quais você é pressionado por tempo de resposta e estimulado para maior permanência.

Conversamos também com um ex-influencer de instagram, que em suas próprias palavras está “postando menos e vivendo mais”, ele comenta sobre os efeitos negativos e de falta percepção de nós mesmos que a rede social pode causar: “Quando nos vemos no espelho ele não vai corresponder as expectativas da rede social, pois há filtros, ângulos, ajuste de luz…, então você não se reconhece no seu próprio reflexo e isso é um choque” 

Ele também comenta sobre perfis em que as pessoas se mostram sempre felizes, nos fazendo comparar e almejar um estilo de vida que nem sempre é o que parece.

“Quando você se mostra vulnerável pra alguém é como se você abrisse um espaço para ser atacado e ninguém quer isso, não que alguém vá de fato usar uma fraqueza sua para lhe atacar, mas é como você se sente, entende? Outro ponto que faz com não queiramos nos abrir é que pensamos que ninguém quer conviver com alguém assim tão fragilizado, por isso as pessoas costumam esconder isso.”

Quando perguntamos qual o impacto das redes sociais para as relações interpessoais a longo prazo ele afirma: “As redes sociais não contribuem em nada para a nossa noção de mundo real e referências sobre as pessoas, você  pode ter uma ideia sobre elas, mas na maioria das vezes a pessoa é muito diferente do que ela mostra ali.”

Como podemos ter uma relação saudável com as redes sociais?

Tem se falado a algum tempo com as empresas de tecnologia, que se pense melhor no que é chamado de “Design ético” que se refere a propor que os aplicativos de redes sociais tenham uma aparência menos “sedutora” com o intuito de que não sejamos sugados sem perceber em um vórtice de horas e horas de ócio apenas rolando o feed infinitamente para baixo.

Outra alternativa é desabilitar as notificações de seus aplicativos para que você seja menos estimulado a pegar o celular de minutos em minutos, não me interprete mal, você não vai alcançar nenhum “Nirvana” por deixar o celular no modo avião na hora de dormir, mas sem dúvida é uma forma de reforçar mentalmente de que nós somos os evoluídos e somos nós, o ser humano é quem deve ter o controle sobre a máquina ao invés do contrário.

A tecnologia é útil e nós podemos sim nos beneficiar muito dela, mas de vez em quando é saudável dar aquela desconectada para viver a vida off-line e curtir momentos como, ler um bom livro físico.

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